O que é a real indignação?
Atônitos assistimos a mais um desastre na história do nosso país. Hironicamente o maior desastre aéreo de nossa história aconteceu no chão.
Na verdade, pouco importa se o desastre foi aéreo, se foi em estrada, se foi no mar. Nos indigna sim tantas discussões que são levantadas, tantos ânimos que se revoltam, tantos questionamentos que se afloram. Nosso povo anda tão indignado que se revolta antes mesmo de saber o ocorrido.
O que me deixa arrasada não é necessariamente discutir o que fazer com o aeroporto, com sua pista ou com as ranhuras da pista. Me deixa arrasada imaginar o que a família das pessoas que estavam alí devem passar nesse momento. Não consigo tirar da minha cabeça, a cena de uma mãe despencada no chão do aeroporto ao saber que seus dois filhos, de 14 e 17 anos, estavam nesse vôo. O que passa no coração de uma mãe que em poucos minutos tem que aceitar que não verá mais suas crianças, de um marido que não verá sua mulher e nem o filho que ela esperava, de uma mulher que terá que ver seus filhos crescerem sem compartilhar isso com seu marido? Quantos planos interrompidos? Quantas vidas que ficaram pela metade?
Nossa fragilidade é incrível. Me lembro na terça a noite, quase saindo do trabalho quando aqui na agência começou a correr o boato de um incêndio no aeroporto. Sim, um incêncio de um avião de cargas, e ponto. A gente vive tão habituado com esse aeroporto (que eu consigo ver aqui da janela), que não passa mesmo pela nossa cabeça que a qualquer momento pode acontecer o inesperado. No começo da noite da terça feira, sequer passou pela minha cabeça as proporções do que de fato estava acontecendo.
E quando se vê a dimensão, eu vejo inúmeras pessoas revoltadas, nicks no msn pedindo o fechamento do aeroporto, entendidos de aviação por todos os lados. OK. É mesmo revoltante. Mas…
Criticamos tudo e todos, mas no dia-a-dia, esquecidos fatos como este, eu não vejo de fato uma população que se mobilize. O que eu quero dizer?? Quantas pessoas optam por Cumbica para vôos nacionais? Aqueles que procuram passagens econômicas. Difícil eu me convencer que um número significativo de pessoas optem vor Cumbica pensando na segurança. Aliás, o que vejo, é muita gente xingando quando tem que pegar um vôo em Guarulhos. Pegar a marginal, pegar trânsito, gastar muito mais gasolina. Ir para Guarulhos não é nada prático e no dia-a-dia é assim mesmo. Tempo é dinheiro! é dinheiro para nós, é dinheiro para as companhias aéreas, é negócio para as empresas que precisam que seus executivos voem de lá pra cá e ainda cumpram com suas funções no escritório. Essa é a realidade mais crua e não adianta negarmos que é assim (e eu me enquadro sim nela. Admito).
Se estamos todos realmente indignados e temos consciência suficiente que um aeroporto não poderá ser construído da noite pro dia, deveríamos mesmo fazer algo mais do que criticar, do que repetir mais de 10 vezes a versão da história que cada um ouviu, a história do conhecido do amigo que alguém tinha no acidente e por aí vai. Queria ver de fato a indignação estampada em um aeroporto de Congonhas muito mais vazio, em pessoas preferindo vôos por Guarulhos. Já que somos tão indignados, a mudança no nosso comportamento e rotina, pode mudar muito dessa situação. Se companhias aéreas pressionaram a entrega da pista de Congonhas para faturarem em um mês de tanta demanda como julho, mês de férias, imaginem o que elas poderiam fazer se não conseguissem mais vender passagens em Congonhas???
Difícil, né!? Aiiii, aquele trânsito. Aiiii a pressa. Tá certo. É mesmo muito complicado…..
Mas será que tanta praticidade justifica?
Fica aqui meu real pensamento e solidariedade.

Sibele,
vc descreveu com precisão exatamente o que senti ao dizer: “No começo da noite da terça feira, sequer passou pela minha cabeça as proporções do que de fato estava acontecendo”. A negação me fez achar q foi “uma mera explosão”, algo sem feridos ou vítimas… O q eu achava era q dali a pouco iam saindo passageiros, um a um, com cara de alívio por ter sido um deslize qq.
e acho que, em termos práticos, vc disse tudo aqui:
“é dinheiro para nós, é dinheiro para as companhias aéreas, é negócio para as empresas que precisam que seus executivos voem de lá pra cá e ainda cumpram com suas funções no escritório” tragédia
“Se companhias aéreas pressionaram a entrega da pista de Congonhas para faturarem em um mês de tanta demanda como julho, mês de férias, imaginem o que elas poderiam fazer se não conseguissem mais vender passagens em Congonhas???”
espero q dessa vez a indignação vire ação pra q episódios como esse não se tornem rotina. Até pq qq um de nós – qq mesmo – poderá estar lá, né?
abs
pati